O fator segurança na Europa

mulher sozinha rua

Levando em conta os últimos acontecimentos no Brasil, resolvi falar um pouco sobre como é a questão da segurança por aqui.

Depois que o partner (que é búlgaro) começou a frequentar o Brasil, ele me falava bastante que não queria viver o tempo inteiro da forma como ele se sentia lá: tenso e alerta. Nessa época, eu tava tão inserida nesse ambiente, em que se senti assim é “normal”, que não entendia o que ele queria dizer com isso. Mesmo passando temporadas na Europa, onde quer que eu fosse por aqui, o medo sempre me acompanhava.

Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/06/cartazes-alertam-pedestres-para-o-alto-indice-de-roubos-no-centro-do-rio.html
Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/06/cartazes-alertam-pedestres-para-o-alto-indice-de-roubos-no-centro-do-rio.html

Certa vez, acho que em 2012, eu e o partner estávamos andando pelas ruas de Sófia, na Bulgária, de madrugada, quando, de longe, avistei um cara na penumbra. Liguei o botão de alerta no nível máximo, já que a rua tava deserta e nós estávamos indo na direção dele. Enquanto isso, o partner continuou conversando comigo total “de boas” (what?!). Eu já tava ligadona e nem tava mais escutando nada. Quando chegamos próximo ao dito cujo, ele virou bruscamente pra gente e falou alguma coisa, em búlgaro, obviamente, e eu que tava preparada pra ser atacada, me agarrei no partner e soltei um grito bem alto! O cara se assustou e começou a gritar com a gente, no que o partner começou a conversar com ele e… puxou o isqueiro pra acender o cigarro do homem. POIS É. Ele só queria fogo! Passada a situação, levei um esporrão porque, segundo o partner, o cara só queria saber se a gente tinha isqueiro e que só ficou nervoso porque eu gritei, não tinha intenção de fazer nada com a gente o.O Foda, né?

Aí foi minha vez de explicar que esse pânico permanente, infelizmente, é intrínseco nosso, dos brasileiros em geral. Se em lugares considerados seguros a gente ainda assim fica alerta, em uma rua deserta, de madrugada, não é uma opção achar que tá tudo tranquilo, tudo favorável, mesmo na Europa. Sad but truth. Demorou muito tempo pra eu conseguir ficar um tantinho mais calma em cenários assim e até mesmo no dia-a-dia na rua. Quando meus amigos vem pra cá, já aviso logo que eles podem diminuir o nível de alerta, não precisam andar com doleira (aquela pochet pra colocar na cintura embaixo da roupa) e que, no geral, pode-se usar o eletrônicos sem o risco de ser assaltado.

Por aqui, durante a primavera-verão, os parques se tornam a praia da galera, afinal, o período em que o sol dá as caras dura poucos meses e as pessoas ficam sedentas por qualquer lugarzinho que dê pra sentar ao ar livre.

Galera curtinho um solzinho no parque próximo a minha casa em Praga
Galera curtinho um solzinho no parque próximo a minha casa em Praga

Em Sófia, os parques ficam cheeeios dia e noite, SÓ QUE a prefeitura é um tanto quanto relapsa em relação à iluminação pública da cidade, em especial desses parques, que tem grandes áreas que ficam num completo breu. E pasmem: em alguns tem wi-fi mas não tem luz (what?! – 2) rsrs O que percebi é que os frequentadores locais pouco se importam com isso (talvez essa seja a razão de o governo não se importar também, né? :P). No geral, as pessoas acham tão normal ficar no escuro em lugares públicos que já fui pra festa de aniversário a luz de lanternas e velas tarde da noite no parque, assim como até pra um festival de jazz, com uma estrutura de evento ok, mas sem luz ne-nhu-ma na áerea do público. Todo mundo curtindo os shows e eu tensa esperando a hora q ia, sei lá, levar uma facada. -_-

Aqui na República Tcheca eles são mais cuidadosos quanto a isso. Não só a cidade como as áreas de lazer públicas são muito bem conservadas e iluminadas. Durante o dia a galera fica com celular, computador, tablets, de boas nos gramados, sem risco nenhum. 

Moço usando tranquilamente seu laptop no parque
Moço usando tranquilamente seu laptop no parque

À noite, no últimos tempos, posso dizer que ando sozinha e inclusive atravesso o parque que fica perto da minha casa sem me preocupar (tanto). A prova disso foi noite dessas, passando por lá com uma amiga-visita brasileira, que perguntou: “Você não tem medo de passar aqui essa hora?” e depois de muito tempo aqui pela Gringoland europeia, me dei conta que não, não tenho mais medo, e mostrei pra ela gente fazendo caminhada, passeando com cachorro e contei que às vezes tem até mamys dando uma voltinha com seus bebês, onze horas, meia-noite, todo mundo fazendo suas coisas como se fosse meio-dia (what?! – 3). Pois é, isso é realidade aqui. A polícia tcheca trabalha bastante no sentido de fazer rondas intensivas, principalmente agora com a crise migratória, mas nunca vi eles renderem alguém. O que mais vejo é eles fazendo rondas a pé e aplicando multa de carro.

Porém, contudo, no entanto, pra não dizer que nunca aconteceu nada comigo por aqui na Europa, posso citar a viagem de volta de Colônia (Alemanha) pra Praga que fiz há algumas semanas. A saída do trem foi por volta de 23h, o vagão era divido em cabines de 6 lugares, e aparentemente eu iria ficar sozinha na minha cabine pois só tinha meu (sobre)nome na porta. Achei ótimo! Ia poder deitar e dormir durante a viagem, que duraria 11  horas. Pelo menos era o que eu esperava.

Como era mais ou menos as cabines do trem. Fonte: http://365days2play.com/2013/05/27/train-from-luxembourg-to-strasbourg/
Como eram mais ou menos as cabines do trem. Fonte: http://365days2play.com/2013/05/27/train-from-luxembourg-to-strasbourg/

Na cabine ao lado ficou um grupo de alemães fanfarrões, aparentemente bêbados (dava pra ouvir o barulho das garrafas). Passaram a noite inteira falando alto e batendo (!!!) nas paredes. As portas das cabinetes eram metade de vidro e  não tinham fechaduras, mas pelo menos tinham cortinas, que fechei assim que cheguei. A baderna era tanta que dava pra perceber que às vezes eles saiam da cabine e ficavam andando/correndo de um lado pro outro do vagão.

Chata que sou, no meu estado normal eu teria reclamado pros funcionários imediatamente, só que:

1 – se eu saisse da cabine, eles veriam que eu tava sozinha

2 – no início da viagem, eu tinha percorrido o vagão para ir ao banheiro e não tinha visto ninguém da tripulação, ou seja, eu não fazia a menor ideia de onde encontrar um funcionário

Corredor do vagão e portas de vidro das cabines.
Corredor de vagão e portas de vidro das cabines  Fonte: http://365days2play.com/2013/05/27/train-from-luxembourg-to-strasbourg/

3 – se eu não encontrasse nenhum funcionário ou qualquer outro passageiro que não eles, eu voltaria sozinha pra cabinete

Fueda. Eu só pensava que eles podiam facilmente entrar na minha cabine, fechar porta e cortinas (lembrando que não era possível eu trancar a porta), e sendo eles no mínimo quatro e sem saber se havia outras pessoas no vagão, que que poderia fazer?  Foi uma viagem bem tensa, com o celular acabando a bateria mas pronto pra discar pro partner. Era o que me restava. Cada barulho que eles faziam eu ficava mais nervosa. Num dado momento, um deles abriu a porta e eu soltei um “EXCUSE ME!!!”, eles começaram a rir, fecharam a porta e continuaram fazendo baderna no corredor. Lá pelas 5h, por obra de Jah, em uma parada do trem, entrou uma senhora na minha cabine. Quase que dou um abraço nela! Sério mesmo! UFA! Dessa história, ficou a lição de não pegar mais esse tipo de assento quando estiver sozinha.

 

Enfim, estamos sujeitos e, principalmente, sujeitAs a passar por esse tipo de situação em qualquer lugar do mundo. M**** acontecem aqui na Europa? Sim, acontecem, mas são fatos realmente isolados e não são iminentes o tempo inteiro. Com certeza esse é um dos principais fatores que contam para, pelo menos, por hora a gente ficar por aqui. No Rio, onde eu morava, eu ficaria tensa em dobro, por mim e pelo partner, que tem cara de gringo e chama três vezes mais atenção de assaltantes. 

Finalizando a conversa com minha amiga-visita, chegamos à conclusão que sentir medo e ficar alerta deveria exceção, em situações específicas, e não regra, como é nosso dia-a-dia no Brasil, principalmente de nós, mulheres. Agora, depois de um ano e pouquinho aqui, posso dizer que não devemos aceitar que esse seja o nosso “normal”. Normal é ter liberdade de ir e vir.

mulher rua

2 thoughts on “O fator segurança na Europa

  1. Nossa Chris, nem imagino o que é andar na rua sem ter medo. Já passei por 8 assaltos e umas 2 tentativas de estupro qdo mais nova. nunca tinha pensado que aqui a gente fica sempre nesse alerta. qdo tou no carro se passa alguém ao lado andando ou uma moto fico tremendo toda. na rua se alguém andar atrás de mim fico até com taquicardia. Mas cimo o mundo não eh perfeito prefiro ficar sempre alerta…
    beijão e boa sorte para todas nós.

  2. Isso aconteceu também comigo nos primeiros anos assim que cheguei na Europa. Um dia passeando em Madrid, nos perdemos e o marido, na epoca ainda namorado, foi perguntar a um policia que estava perto e eu nao deixei. Quando ele perguntou porque percebi o medo que eu tinha de policiais era o mesmo que eu tinha dos bandidos. Agora que meu sistema de alerta virou coisa do passado tenho medo de ir ao Brasil e ja nao saber me defender.

Deixe uma resposta

Scroll To Top